quarta-feira, 30 de setembro de 2026

casa de campo

... 
Os pássaros cantam.
A floresta é silenciosa.
O sol brilha.
Tudo parece em paz.
Abel está na sua caminhada.
Ele faz uma trilha.
Tira fotos e grava vídeos.
Procura esquecer o que aconteceu.
Ele não quer pensar nisso.
Senta-se a sombra Duma árvore.
Toma um gole d'água.
Um riacho está sua frente.
Som d'água lhe acalma.
Ele olha pro anel.
Sente a sua temperatura.
Um coelho está ao longe.
Ele sente o cheiro de mato.
Há uma calma no ar.
...
Abel continua sua caminhada.
Tarde é fria.
Ele vê um riacho.
Se banha nele.
Veste a roupa.
Escorrega numa pedra.
Bate a cabeça.
Ele desmaia.
Acorda numa cabana.
Olha ao redor.
Vários móveis rústicos.
Ambiente a meia luz.
Uma lareira é acesa.
Ele tá coberto.
Olha pro lado.
Vê um homem.
Tenta se mexer.
Geme de dor.
O homem acorda.
Olá, você despertou.
Quem é você?
Meu nome é cinan, e o seu?
Eu sou abel.
Olá, Abel.
O nômade sente uma dor na cabeça.
Ele põe a mão na testa.
Está enfaixada.
Você bateu a cabeça numa pedra.
Onde eu estou?
Na minha casa.
Você me encontrou?
Não, foi Heitor.
Quem é Heitor?
Um amigo meu.
Obrigado pela gentileza.
Nós estamos aqui pra isso.
Eu preciso ir.
Ele tenta levantar.
Não consegue.
Ainda está tonto.
Cinan ajuda ele.
Não se mexa, você ainda está fraco.
Uma mulher entra no ambiente.
Sim, você perdeu sangue.
Esta é a minha mulher, dhara.
Olá, eu sou enfermeira.
Abel faz um aceno de cabeça.
Obrigado por cuidar de mim.
De nada, descansa um pouco.
Você vai precisar.
Abel adormece novamente.
O casal se olha.
...
Abel desperta novamente.
Chove lá fora.
Chama por alguém.
Ninguém lhe responde.
Casa é vazia.
Ele sente-se melhor.
Levanta-se cama.
Veste uma roupa.
Procura a sua mochila.
Não a encontra.
Olha pela janela.
Há um nevoeiro.
Porta se abre.
Quem entra é Heitor.
Abel olha pra ele.
Oi, eu sou Heitor.
Ahh, foi você que me encontrou.
Sim.
Obrigado por salvar a minha vida.
Não tem de que.
Onde estão eles?
Não sei, pensei que estivessem aqui.
Está um tempo chuvoso.
Sim, você quer algo?
Eu procuro minha mochila.
Ahh, ela se foi na correnteza do rio.
É uma Pena.
Eu sinto muito.
Tudo bem, eu compro outra.
Abel senta-se na cama.
Você conhece eles a tempo?
Sim, há 10 anos.
Muito tempo mesmo.
Pois é.
O que você faz?
Eu sou professor de teatro.
Ótimo, eu gosto de teatro.
Pois é, e você faz o que?
Eu era vendedor de automóveis.
Você era?
Sim, estava infeliz, e sai.
O que você faz agora?
Eu sou nômade digital.
Interessante.
Falando nisso, você tem celular?
Ter eu até tenho, mas não funciona.
Não?
Aqui não pega sinal.
Estranho.
Porque?
Onde eu estava, pegava.
Você não está mais lá.
Abel olha pra ele.
Isto é verdade.
Chega Farah, o filho cinan.
Olá, você está melhor?
Sim, obrigado.
Olá, Heitor.
Oi, Farah; como você está?
Eu estou bem, obrigado.
Onde estão seus pais?
Eles estão caçando, e já voltam.
Abel repara em Farah.
Caçando? Que interessante.
É sim.
Farah faz um gesto pra Heitor.
Você pode vir um momento aqui?
Tá bom então, com licença.
Os dois saem quarto.
Abel olha pela fechadura.
Os dois conversam baixo.
Farah gesticula.
Heitor só observa.
Eles param de conversar.
Olham para porta.
Abel se afasta.
Eles vão para cozinha.
Abel senta-se na cama.
Sua respiração é ofegante.
...
Tarde é quente.
Abel está com calor.
Ele passeia pelo campo.
Se recupera aos poucos.
Ele sente algo estranho.
Aquele lugar parece pacífico.
Porém algo não é visto.
Um segredo ronda este cenário.
Abel tem uma sensação.
Ele olha para cabana.
Farah o observa janela.
Ele faz um aceno.
Garoto não responde.
Dhara aparece na porta.
O jantar está pronto.
Eu já vou, obrigado.
Ele olha novamente para janela.
Farah não está mais lá.
Abel entra & vai jantar.
...
A noite chega.
Um lobo uiva ao longe.
Abel acorda.
Ele olha pela janela.
Não vê o animal.
Sente uma presença estranha.
Passos ecoam pelo corredor.
Ele vai ver o que é.
Uma silhueta está com uma lanterna.
Ela sai casa.
Vai em direção a floresta.
Abel pensa se vai ou não.
Sua curiosidade é maior.
Ele segue a pessoa misteriosa.
Vai até uma cabana abandonada.
Pega uma pedaço de madeira.
Ele pensa em entrar, mas desiste.
Se volta para ir embora.
Uma voz conhecida chama seu nome.
Abel olha para trás.
É cinan que está ali.
O que você faz aqui?
Me desculpe, eu ouvi passos.
Resolveu me seguir?
Não sabia que era você.
Pois sou eu.
Desculpe lhe atrapalhar, eu já vou.
Espere um pouco.
Abel olha para ele.
O que foi?
Eu preciso de sua ajuda.
Minha ajuda?
Sim.
Para que?
Para matar o meu filho.
Como é?
Nós estamos correndo perigo.
eu não entendi.
Eu vou lhe explicar tudo.
...
Ambos caminham pela floresta.
O que o seu filho tem?
Ele está possuído.
Possuído pelo que?
Eu vou lhe explicar a situação.
-
Narrativa de cinan 
-
Nós mudamos para cá há 5 anos.
Estávamos cansados da cidade.
Todo aquele barulho & agitação.
Eu estava doente.
Minha mulher estava estressada.
Nós estávamos sobrecarregados.
Eu preciso de paz e silêncio.
Minha escrita funciona assim.
Meu filho gostou daqui.
Ele brincava por aí.
Até que um dia achou um livro.
Um livro antigo e vermelho.
Ele contém histórias & figuras.
Na maioria, são alegorias.
Farah ficou obcecado pelo livro.
Andava com ele para todo lado.
Dormia com ele.
Sua personalidade mudou.
Ele era calmo e tranquilo.
Ficou agitado e nervoso.
Sem paciência para nada.
Era ignorante conosco.
Dhara & eu logo percebemos.
Este livro mudou nosso filho.
Várias noites, ele saia floresta.
Não sabemos para que.
Seguimos ele algumas vezes.
Sempre o perdemos de vista.
Um dia pegamos livro.
Nós queimamos ele.
Farah ficou furioso.
Quis nos agredir.
Trancamos ele no porão.
Foi o jeito.
Não me orgulho disto.
Foi preciso para nossa segurança.
Noutro dia ele ficou calmo.
O livro estava em suas mãos.
Intacto & inteiro.
Nenhum sinal de fogo.
Farah sorriu para nós.
Foi para o seu quarto.
Não disse nada.
Contamos tudo a Heitor.
Ele não crê em nós.
Diz que é imaginação nossa.
Uma noite, nós fomos acordados.
Farah estava perto de nossa cama.
Tinha uma faca.
Disse que não era nosso filho.
Era um tipo de clone dele.
Nosso filho estava preso.
Em algum lugar floresta.
Fez uma ameaça.
Não podíamos sair daqui.
Só quando ele decidisse a hora.
Se fizermos algo, ele mata Farah.
Isso já tem dois anos.
Vivemos desta forma.
Não dissemos mais nada Heitor.
Até que você chegou.
-
Abel olha para cinan.
Porque não vai até a polícia?
Você não ouviu o que falei?
Eu ouvi Sim.
Ele nos vigia alguma forma.
Abel olhou ao redor.
Cinan percebe o movimento.
Não se preocupe, ele está dormindo.
Como você sabe disto?
Dhara está olhando ele.
Compreendo.
Se ele sair, ela liga para mim.
Porque eu então?
Você é a nossa única chance.
Que ótima notícia.
Tem mais uma coisa.
O que é?
Você é a primeira visita desde então.
Como assim?
Ninguém aparece aqui depois disto.
Que estranho.
Este lugar é estranho.
Eu não sei se posso.
Nós já tentamos mata-lo.
O que?
Com veneno, mas não faz efeito nele.
Tem certeza que ele não é seu filho?
Claro que sim.
Vocês já tentaram sair daqui?
Sim, mas sempre voltamos para cá.
Como um looping espacial?
Sim.
Eu também estou preso aqui?
Creio que sim.
E Heitor, ele não sai?
Ele está preso, mas não sabe disto.
Como assim?
Ele está como um fantasma.
Sem consciência realidade.
Isto mesmo.
Eu tenho que pensar.
Certo, vamos voltar.
O dia está amanhecendo.
Daqui a pouco, ele acorda.
Os dois vão embora.
O sol surge no horizonte.
...
Abel pensa por um tempo.
Ele decide ir embora.
Não quer ficar ali.
Não confia no que cinan lhe contou.
Abel ouve gritos.
Dhara está chorando.
Ele desce as escadas.
Vê uma cena na sala.
Farah está morto.
Uma faca no peito.
Sua mãe está ajoelhada ao seu lado.
Cinan tem as mãos ensanguentadas.
Dhara briga com ele.
O escritor olha para Abel.
Eu não fiz nada disto.
Heitor chega na hora.
Tudo é uma confusão.
...
Dhara pega faca.
Ela ataca cinan.
Enfia lâmina no seu coração.
Ele morre na hora.
Heitor tenta dete-la.
Ela esfaqueia ele na mão.
Ele escorrega no sangue cinan.
Bate a cabeça no chão, e desmaia.
Dhara foge dali gritando.
Abel vai atrás dela.
Uma névoa surge do nada.
Sua visão fica embaçada.
Ouve ela gritar ao longe.
Abel cai num buraco.
Ele rola num barranco.
Cai em cima de uma rocha.
Sua perna se quebra.
Ele grita de dor.
Percebe alguém vindo.
Abel não consegue ver quem é.
A névoa é intensa.
Alguém bate na sua cabeça.
Ele fica desacordado.
...
Abel acorda desorientado.
Ele observa ao seu redor.
Vê uma sala amarela.
Ela tem uma mesa vidro.
Em cima dela, sua mochila.
Ele vai até a mesa.
Olha mais uma vez ao redor.
Vê uma porta vermelha.
Ele tenta abri-la.
Ela está fechada.
Procura pela chave.
Não a encontra.
Volta até a mochila.
Ele procura seus objetos.
Não tem nada lá.
A não ser o livro vermelho.
Aquele mencionado por cinan.
Ele abre o livro.
As páginas estão em branco.
Não há nada escrito.
Nenhum desenho feito.
A porta se abre.
Quem surge é cinan.
Ele está jaleco.
Abel olha para ele.
O que está acontecendo?
Você não lembra?
Lembrar o que?
Você está internado aqui.
Como é?
Abel volta se olhar.
Ele está com um uniforme hospitalar.
Isto não pode ser possível.
Cinan olha para o prontuário.
Depois, olha para ele.
Você não lembra de nada?
eu lembro de estar na sua casa.
Uma casa campo?
É isso aí.
Você não esteve em minha casa.
Como não?
Você está delirando.
Eu não entendi.
Você enlouqueceu, e matou seu filho.
É mentira, você está me enganando.
Porque eu faria isto?
Por causa deste livro.
Abel volta-se para mesa.
Não há nada lá.
Só a sua cama.
Ela estava aqui.
Ela quem?
A mesa e o livro.
Neste momento, entra dhara.
Me chamou doutor?
Preciso de você, enfermeira.
Está na hora remédio?
Sim.
Eu não preciso de remédio nenhum.
Se acalme, por favor.
Eu vou sair daqui.
Abel tenta fugir.
Cinan o segura.
Heitor, ajuda aqui, por favor.
Chega o outro personagem.
Também vestido de enfermeiro.
Os dois agarram ele.
Abel se debate.
Socorro, eles estão me matando.
Dhara aplica um calmante nele.
Abel vai perdendo as forças.
Uma lágrima corre por seu rosto.
Porque vocês estão fazendo isso?
Não estamos fazendo nada.
É para o seu bem.
Os dois homens o colocam na cama.
Abel está grogue.
Dhara cobre ele.
Depois, voltamos aqui.
Os três saem.
A porta é trancada.
Cabeça dele é cada vez mais pesada.
olha para o teto.
Lâmpada fluorescente pisca.
Logo se apaga.
Abel está só.
No meio da escuridão.
O sono chega.
Ele se entrega ao esquecimento.
...
(Fim)




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