sábado, 22 de agosto de 2026

cortina de Seda

Capítulo 01
...
Olá.
Meu nome é Daemon.
Sou um personagem literário.
Estou na beira Duma Ponte.
Eu vou me matar.
Minha vida não tem mais sentido.
Fui protagonista dum livro.
Este livro foi muito famoso na época.
Fez sucesso no mundo todo.
As pessoas me adoravam.
Eu era cultuado.
Fizeram até filme de minha história.
O tempo passou.
Minha memória esfriou.
Poucos se lembram de mim.
Estou relegado ao esquecimento.
Um pouco dramático?
Pode ser, porém me sinto assim.
Qual sentido disto?
Um personagem esquecido?
Só que algo vem a minha mente.
Como eu posso morrer?
Sou feito de tinta e papel.
Nasci criatividade alguém.
Este alguém tem nome.
James - o meu criador.
Só ele pode me Livrar disto.
Eu vou procurá-lo.
Ele vai ter que me ajudar.
Não pode me criar assim.
Só para depois me enxotar.
Não sinto vontade de nada.
Um grande vazio em mim.
A tinta perdeu a cor.
As palavras se apagam.
O meu livro se desgasta.
Eu desço Ponte.
Ajeito minha roupa.
Começo minha jornada.
Por onde ir?
Em que lugar irei encontrá-lo?
Ah, já sei.
Eu vim pensamento dele.
Vou visitá-lo no seu sonho.
...
Capítulo 02
...
James foi ao teatro.
Ele também é ator.
Gosta deste mundo.
Seu dia foi frio.
Assim como meu.
Eu espero ele dormir.
Apareço em seu sonho.
Ele me reconhece.
Daemon, é você?
Sim, sou eu.
O que você quer aqui?
Porque você me abandonou?
Eu não abandonei você.
Como não?
Você está aqui.
Isto não quer dizer nada.
Isto quer dizer tudo.
O que você quer dizer?
Você vive na minha mente.
Eu vivo num livro esquecido.
Não seja dramático.
Eu sou o que sou.
O que eu posso fazer por você?
Me escreva novamente.
Eu não posso fazer isto.
Porque não?
Você pertence ao meu passado.
Eu não gosto disto.
Vou criar alguém para você.
Alguém para mim?
Em breve você verá.
James acorda.
Eu fico aqui.
Sem saber o que virá.
...
Capítulo 03
...
Eu estou na sala.
Vento balança cortina de Seda.
Eu recebo uma mensagem.
"Venha até o meu jardim.
Eu lhe ajudarei com o seu sonho.
(Anfitrião)" 
Não sei quem ele é.
Não sei onde ele mora.
Um jardim é tudo que sei.
Vou a procura deste lugar.
Saio pela estrada.
Tudo é possível.
Agora já está tarde.
Sol é visível.
Clima é ameno.
Encontro personagens pelo caminho.
Eles conversam entre si.
Não notam minha presença.
Falo com eles.
Alguns respondem, outros não.
Já não me interessa.
O que quero é viver.
Voltar a ser quem fui.
Vento nas árvores.
Folhas pelo chão.
Vejo um jardim ao longe.
Sinto uma profusão aromas.
Flores coloridas e variadas.
Alguém me espera na entrada.
Olá, eu sou anfitrião.
Estava te esperando.
Quem mandou vc?
O nosso criador.
Compreendo.
Eu soube o que você quer.
E o que eu quero?
Reencontrar a sua essência.
É isso mesmo.
Venha comigo.
Ele me leva a um passeio.
Há muitos frutos diferentes.
Formatos geométricos.
Não é tão somente um jardim.
É um pomar também.
Um riacho corre ao meu lado.
Som aquático me acalma.
Paramos em frente a uma árvore.
Ela é vermelha.
Tem frutos azuis.
Anfitrião pega minha mao.
Qual era sua função?
Eu era um cavaleiro.
Vivia muitas aventuras.
Tinha um dragão como amigo.
Derrotei vários vilões.
Os leitores me adoravam.
Você sente falta disso?
Eu sinto sim.
Então coma um fruto destes.
O que acontecerá comigo?
Algo que só cabe a você ver.
Tudo bem então.
Eu pego fruto azul.
Seu formato é triangular.
Dou uma mordida.
Ele tem gosto sol.
Um sono se apodera de mim.
Anfitrião me conduz a uma cama.
Ela é feita de folhas.
Deito-me nela.
Olho as nuvens.
Elas nublam minha mente.
Não estou mais aqui.
...
Capítulo 04
...
Eu acordo numa biblioteca.
Uma mulher olha pra mim.
Olá.
Quem é vc?
Meu nome é Laura.
Onde eu estou?
Na minha bibliotecária.
O que eu faço aqui?
Porque você não me diz?
Eu?
Sim, você.
Outra mulher entra na biblioteca.
Ela traz uma bandeja.
Três bebidas estão nela.
Esta é a minha namorada, Andreia.
olá, Daemon.
Como você sabe meu nome?
Ora, meu querido. Aqui é assim.
Assim como?
Andreia distribui as bebidas.
Que tal um vinho?
Eu olho pra bebida.
Vontade bate a porta.
Eu bebo vinho.
Olho as prateleiras.
Livros por todo lado.
Laura senta-se num sofá.
O que posso fazer por você?
Você não sabe?
É claro que sim.
Então porque pergunta?
Porque eu gosto de perguntar.
Eu dou um suspiro.
Minha paciência é testada.
Ela aponta para um lugar.
Vê aquele livro ali?
Eu olho um livro de capa roxa.
Sim.
Pegue ele pra mim, por favor.
Eu pego & entrego a ela.
Laura folheia ele.
Hum, isso é interessante.
O que?
A sua história.
Ela passa o livro pra mim.
Eu vejo a capa.
Esta é a minha história.
Sim, é ela.
Você pode me ajudar?
James é muito esperto.
Como assim?
Manda você até mim.
Resolver a sua situação.
Você pode?
Depende.
De que?
Você quer isso?
É óbvio que sim.
Ela olha pra Andreia.
Isto tem um preço.
Que preço?
Isto eu não posso dizer.
Porque?
Porque não.
Regras da casa.
Que coisa chata hein?
A vida é chata meu bem.
Até nos livros.
Andreia vem até mim.
Pega o livro.
Recoloca ele na prateleira.
Laura aponta para um relógio.
Tempo está passando.
Você aceita ou não?
Tá bom, eu aceito sim.
Ela levanta-se.
Ótimo.
Só um momento.
Laura vai até Andreia.
As duas se beijam.
Uma chuva de Prata cai ali.
Ela não molha os LIVROS.
Nem as duas.
Só a mim.
Algo acontece comigo.
Eu deixo ser preto e branco.
Meu corpo fica colorido.
Tinta escorre por mim.
Elas olham para mim.
A chuva termina.
Reparo em minhas mãos.
Olho pra ela.
E agora o que acontece?
Passe por aquela porta.
Tudo será diferente.
Eu vejo uma porta atrás de mim.
Ela não estava ali antes.
Eu agradeço as duas.
Passo pela porta.
Uma escuridão me envolve.
Lá vou eu novamente.
...
Capítulo 05
...
Eu me vejo na forma humana.
Estou no mundo real.
Isso é incrível.
Pela primeira vez, sinto a vida.
O cenário ganha textura pra mim.
Não sei como, mas sei onde estou.
Sei quem procurar.
James, o meu criador.
Ele terá que me ajudar.
Dar um novo rumo a mim.
Vou até lá.
Bato na sua porta.
Um empregado me atende.
Pois não?
Eu procuro James.
Ele não está.
Para onde ele foi?
Para um retiro budista.
Onde é isso?
Quem é vc? Porque quer saber?
Eu sou um personagem dele.
Como é?
Eu toco na sua testa.
Ele vê tudo que sei.
Algo nele muda.
Eu vou lhe passar o endereço.
Ótimo, obrigado.
...
Capítulo 06
...
O lugar é bonito.
No meio floresta.
Um templo zen.
O silêncio reina.
Eu chego a recepção.
Um monge me atende.
Pois não?
Eu procuro James, o escritor.
Ele não pode ser incomodado.
Como assim?
Aqui é um retiro.
Eu sei disso.
Então se sabe porque veio?
Porque preciso falar com ele.
Qual é o seu nome?
Meu nome é Daemon.
Vou ver o que posso fazer.
Ele sai dali.
Eu espero um momento.
O monge retorna.
Ele não pode atendê-lo agora.
Como não pode atender?
Senhor é surdo?
Para um monge vc é bem ignorante.
Eu sou monge, não santo.
Eu vou embora dali.
Volto a casa James.
Mordomo me atende.
O senhor novamente?
Eu vou ficar aqui até ele voltar.
Como é?
Isto que você ouviu.
Ele não me disse nada.
Eu estou dizendo agora.
Vá embora daqui.
Eu não vou.
Vou chamar a polícia.
Saio atrás dele.
Pego telefone sua mão.
Jogo no chão.
Mordomo olha pra mim.
Mas o que é isso?
Se chamar a polícia, eu mato vc.
Ele vai até o fogão.
Coloca uma chaleira no fogo.
Aceita um chá?
Sim, obrigado.
...
Capítulo 07
...
Alguns dias se passam.
Nada de James.
Eu estou impaciente.
Alguém bate a porta.
O mordomo atende.
É alok, um monge zen.
Pois não senhor?
Eu quero falar com Daemon.
Escuto meu nome.
Apareço na porta.
Aqui estou eu.
O que você quer comigo?
Eu vim a mando James.
Porque ele não veio?
Ele não quer ver vc.
O que você quer?
Ele disse pra você ir embora.
O que?
Siga sua vida.
Ele me deu esta vida.
Pois então aproveite.
Eu vou aproveitar sim.
Quando ele me der um propósito.
Isto vai ser difícil.
Porque?
Porque ele é outra pessoa.
Isto não faz sentido.
Assim como vc.
Eu olho no fundo de seus olhos.
Preciso falar com ele, por favor.
Eu preciso pensar.
Monge senta em posição lótus.
Fecha os olhos.
Pratica respiração consciente.
Algum tempo se passa.
Ele abre os olhos e levanta.
Tudo bem então.
Eu vou levar vc até ele.
Agradeço a gentileza.
Nós vamos até uma casa na colina.
Alok me deixa lá.
Eu bato na porta.
James atende.
O que você faz aqui?
Eu não quero falar com vc.
Mas eu quero falar contigo.
James olha pra sala.
Eu estou ocupado agora.
Eu olho na mesma direção.
Andreia está lá.
Eu olho pros dois.
Andreia vem até mim.
Laura está desaparecendo.
Mais um problema pela frente.
...
Capítulo 08
...
James está deitado.
Olha o teto.
Não acredito que vocês estão aqui.
Eu chego perto dele.
Nós precisamos de vc.
Vocês não precisam de mim.
Andreia levanta-se cadeira.
É claro que sim.
James fica sentado.
O que vocês querem de mim?
A sua lembrança.
A minha o que?
O seu pensamento.
Porque?
Isto é óbvio.
Você nos criou.
Vivemos na sua imaginação.
Você nos esquece.
Nós estamos desaparecendo.
James vai até a janela.
Isto é loucura.
Andreia se aproxima de James.
Por favor.
Não deixe Laura morrer.
Ela é tudo que tenho.
Eu vou até ele.
Isto tem uma solução.
Ela se vira para nós.
Qual?
Escrever uma nova obra.
Então nós viveremos.
James olha pra sua escrivaninha.
Para sua máquina de escrever.
Muito bem.
Se é história que vocês querem.
É isto que terão.
Ele vai para o seu lugar trabalho.
Põe uma folha na máquina.
As teclas começam a bater.
Uma luz nos envolve.
Somos levados a outro cenário.
...
Capítulo 09
...
Andreia e eu voltamos ao livro.
Vamos até Laura.
Ela está deitada numa cama dourada.
Andreia beija & abraça.
Laura está pálida.
O que você tem?
Ele me atacou.
Quem?
Ela olha pra mim.
Malarius.
Não pode ser possível.
Ele é o meu arqui-inimigo.
Pensei tê-lo derrotado.
O que ele quer?
Controlar a terra dos livros.
Ele roubou meu poder.
Andreia pega uma espada.
Onde ele está?
Creio que na torre negra.
Temos que acabar com ele.
Ou ele nos apagará história.
Eu concordo com ela.
Pego um arco e flecha.
Olho pra Laura.
Você ficará bem só?
Ela segura mão de Andreia.
Sim.
Vocês não podem fazer nada aqui.
Se ele ganhar, nós perdemos.
Tudo bem então.
Nós vamos atrás dele.
...
Capítulo 10
...
Chegamos a torre negra.
Malarius está numa espreguiçadeira.
Toma uma bebida.
Olha pra nós.
Olá, meus queridos.
Sejam bem-vindos.
Juntem-se a mim.
Vocês querem uma bebida?
Andreia pega sua espada.
Ora, seu desgraçado.
Ele ergue a sua mão.
Ela fica paralisada.
Nem pense nisto.
Eu pego uma flecha.
Atiro em sua direção.
A flecha cai no chão como uma tinta.
Malarius dá um suspiro.
Você não aprende mesmo, não é?
O que você quer?
Sair daqui.
Porque não sai?
Porque ele esqueceu de mim.
Isto tira minha força.
Mas vc conseguiu sair.
Pois é.
Agora estou volta.
Nada feito pra mim.
Muito bem, me diga como.
Como o que?
Você saiu daqui ué?
Foi pelo poder Laura.
Hum, o mesmo que ela não me deu.
Pois é.
Então, vamos nós dois voltar pra lá.
Eu não vou ficar neste marasmo.
James vai ter que me ajudar.
Eu já tentei isso.
Vamos tentar mais ainda.
Eu não sei como.
Pois eu sei.
Malarius me beija.
Nós saímos dali.
Andreia volta ao normal.
Não entende o que aconteceu.
...
Capítulo 11
...
Nós voltamos ao mundo real.
Precisamente ao templo zen.
Não me perguntem como.
Nada disto faz sentido.
Eu olho pra malarius.
E agora o que vamos fazer?
Deixa comigo.
Ele bate na porta.
Um monge bem até nós.
Eu o reconheço.
É alok.
Repara em malarius.
Olha pra mim.
Você novamente?
Sim, sou eu.
O que vocês querem aqui?
Malarius toma dianteira.
Nós queremos ver James.
Ele não está mais aqui.
Eu não sabia que monge mentia.
Eu não estou mentindo.
Então nos deixe entrar.
Alok olha pro céu.
Que Buda me ajude.
Só um momento por favor.
Ele desaparece atrás do portal.
Volta uns minutos depois.
Ele tem uma katana.
Mas o que é isso?
Alok empunha espada.
Vão embora daqui.
Eu fico confuso.
Pensei que vocês fossem pacíficos.
Monge aponta espada para mim.
Somos até certo ponto.
Malarius se coloca diante dele.
Eu só quero saber onde ele está.
Porque eu diria vocês?
Porque não?
Porque ele me ajudou no passado.
Que tipo de ajuda?
Isto não é sua conta.
Malarius pega minha mao.
Vamos embora daqui.
Este lugar já deu.
Iremos até a casa dele.
Eu vejo alok pegando um celular.
Ele fala com alguém.
...
Capítulo 12
...
Nós chegamos a casa - James.
Mordomo nos atende.
Eu sei o que vocês querem.
Ele tá aqui.
Vcs podem entrar.
Então nós entramos.
James está num dojo.
Vestido de quimono.
Admira uma katana.
Ele levanta-se.
Olha pra nós.
Muito bem.
Agora já chega.
Minha paciência acabou.
Culpa é sua.
Você nos esqueceu.
Malarius aponta 1 dedo para ele.
É mesmo? Não me diga.
Você é um hipócrita.
Mundo é hipócrita.
Eu já tô cansado dele.
Então nos dê a liberdade.
Faça uma nova história pra nós.
Eu me ajoelho perante James.
Por favor ajude Laura.
Ela tá morrendo.
Começa a chover.
Ele olha pela janela.
Malarius pega katana.
Aponta para ele.
Agora decisão é sua.
O mordomo chega.
Aponta 1 arma para nós.
Saiam daqui agora.
James fala com ele.
Esta tudo bem.
Não precisa fazer isto.
Mas senhor...
Eu disse que não precisa.
Mordomo abaixa arma.
Sai do dojo.
Ele se vira para nós.
Me matem e vocês morrerão.
Estão na minha mente.
Eu não quero mais viver.
Estou cansado disto.
Vou lhes dar uma última história.
Depois é com vcs.
Ele senta-se na mesa.
Começa a compor um conto.
Olha pra mim.
Isto é pra você.
...
Capítulo 13
...
Eu me vejo numa estrada.
Chão é metálico 
Há letreiros em Neon.
Estou numa moto vermelha.
Uniforme couro preto.
Detalhes em amarelo 
Malarius tá ao meu lado.
Sua moto é branca.
Seu uniforme é azul.
Nós apostamos corrida.
Sinal é lançado 
Malarius larga na frente.
Eu sigo atrás dele.
Vento nos envolve.
É 1 noite fria.
Tudo é silêncio.
Só barulho de motor (vrum)
Corta o ar noturno
Voamos pelo chão.
Eu ultrapasso ele.
Bate na minha moto.
Tenta me tirar pista.
Planamos por uma plataforma.
Ele retoma dianteira.
Agora é a minha vez.
Eu bato na moto dele.
Malarius se desequilibra.
Recupera o equilíbrio.
Para no meio pista.
Eu também paro.
Nós nos encaramos.
Aceleramos as nossas motos.
Vamos d'encontro ao outro.
Estamos a poucos metros.
Desviamos um doutro.
Eu consigo parar antes de cair.
Há um abismo ao lado pista.
Malarius não consegue 
Ele mergulha na escuridão.
A corrida terminou.
Só um sobrou.
...
Capítulo 14
...
Eu estou no mosteiro.
James me mandou pra lá.
Disse que preciso disto.
Um tempo pra ser real.
Se eu quiser isto.
Recebi uma mensagem Andreia.
Laura está bem.
Ela voltou ao normal.
James não se rendeu a malarius.
Sua história teve outro fim.
Agora estou aqui com alok.
Ele me pede pra fechar os olhos.
Imaginar um lugar agradável.
Pensar na minha jornada.
Eu fecho os olhos.
Me vejo num jardim.
Um sol de agosto.
Estou só aqui.
olho um canal a minha frente.
Água corre tranquila.
Penso em minha vida infeliz.
Falta de propósito.
Vejo uma folha ao vento.
Me sinto como ela.
Não estou preso a nada.
Não sou ligado a ninguém.
O que isto faz de mim?
Alguém sem vida?
Alguém sem alma?
Um ser de papel?
Sinto a brisa no meu rosto.
Percebo que nada é perfeito.
Só a vontade de continuar.
Pretendo encontrar alguém.
Um ser que valha a pena.
Não qualquer coisa.
Alguém significativo de fato.
Então eu lembro algo.
Preciso me encontrar.
Antes de tudo.
Ser a origem do meu mundo.
O resto é consequência.
Abro os olhos.
Sinto aroma das flores.
Olho pro céu.
As nuvens passam.
Eu estou pronto.
Preparado para (re) começar.
Hoje e sempre.
...
(Fim)







domingo, 2 de agosto de 2026

Sócrates no divã

Ato 1
...
Cena 1
...
Uma sala de atendimento.
Tudo é arrumado.
Entra Danilo. 
Ele é terapeuta.
Sua consulta vai começar.
Ele olha agenda.
Fica espantado.
Olha o leitor.
- eu não acredito nisso.
Confere a agenda.
- isto é um sonho.
Chama a secretária.
Ela entra.
- pois não?
- chame o paciente, por favor.
- pois não.
A secretária sai.
Sócrates entra.
Filosófico como sempre.
Danilo o cumprimenta.
- é uma honra ter o senhor aqui.
- a honra é toda minha.
- sente-se, por favor.
Sócrates senta-se.
Danilo olha para o leitor.
- isto é demais, vocês não acham?
O filósofo presta atenção nele.
- o que é demais?
- você aqui comigo.
- isto não é nada demais.
- para nós é sim.
- nós quem?
- eu e os leitores deste livro.
Sócrates observa ao seu redor.
- nós estamos dentro de um livro?
- com certeza sim.
- isto é interessante.
- você não vê?
- por enquanto não.
- porque? 
- só sei que nada sei.
- tudo bem então vamos começar?
- sim.
- porque você está aqui?
- porque viajo pelo tempo e espaço.
- você é imortal?
- todos nós somos imortais. 
- o que você acha deste tempo atual?
- ele é interessante.
- em que sentido?
- a maioria está na caverna de Platão.
Sócrates pega uma lanterna.
A luz se apaga.
Ele acende a lanterna.
Olha para Danilo.
- o que você vê?
- a escuridão.
- onde você está nesta escuridão?
- eu estou aqui.
- você conhece a si mesmo?
Danilo pega um livro.
Folheia ele.
Não entende o que é escrito.
Fecha o livro.
- eu acho que não.
- isso é bom.
A luz volta.
Sócrates apaga lanterna.
Danilo olha para ele.
- e você se conhece?
- com certeza não.
Sócrates levanta cadeira.
Deita-se no chão.
Danilo vai até ele.
- o que você está fazendo?
- eu vou dormir.
- porque?
- para sonhar com um mundo novo.
- o que eu faço?
- durma comigo também.
- isso vai me ajudar?
- sim.
- tá bom então.
Danilo deita-se junto a Sócrates.
Os dois dormem.
Ana chega com dois lençóis.
Ela é a secretária do Danilo.
Cobre os dois.
Apaga luz do escritório.
Sai e fecha porta.
...
Cena 2
...
Os dois acordam.
Dão bom dia um ao outro.
Sócrates vai ao divã.
Danilo para sua mesa.
Ele chama sua secretária.
Ana chega.
- bom dia, o que deseja?
- dois copos d'água, por favor.
- pois não.
Ela sai da sala.
Sócrates olha para Danilo.
- e então, o que achou?
- o que achei do que?
- do sonho.
- eu não sonhei.
- não?
- não.
- Ah, que pena.
- porque?
Ana chega com água.
- aqui está água.
- obrigado.
- de nada, com licença.
Ana recolhe os lençóis.
Ela sai novamente.
Danilo oferece água a Sócrates.
Ele aceita e agradece.
Os dois bebem água.
O terapeuta pega caderno e caneta.
Olha para Sócrates.
- porque é uma pena não ter sonhado?
O filósofo olha o teto.
- porque a vida é um sonho.
Danilo anota algo no caderno.
- este momento é um sonho?
- sim.
- nós acabamos de acordar.
- sonho não dorme.
Ele anota outra coisa no caderno.
Sócrates levanta-se.
- eu vi que aqui tem um jardim.
- sim.
- então venha comigo.
- porque?
- quero te mostrar uma coisa.
Os dois saem consultório.
...
Cena 3
...
Há um jardim lá fora.
Os dois passeiam entre as flores.
Danilo cheira uma rosa.
- o que você quer me mostrar?
Sócrates aponta para um lugar.
Dois rapazes sentados num banco.
Eles estão se beijando.
Danilo olha cena.
- o que você quer dizer?
- você gosta disto?
- disto o que?
- não se faça de desentendido.
- a vida é deles.
- a vida é sua também.
Os dois sentam-se num banco.
- isto foi há muito tempo.
- você não esqueceu.
- não.
- você sabe porque me matei?
- obrigaram você a isso.
- um motivo eu tive.
- qual é?
- eu não nego a vida.
- você acha que Eu nego a vida?
- você nega o amor.
- isto é absurdo.
Entra em cena ceix.
Um personagem mitológico.
Ele fará parte desta crônica.
- olá.
Ambos olham para ele.
Danilo toma dianteira.
- quem é você?
- meu nome é ceix.
Sócrates complementa o diálogo.
- o que você quer?
- entender uma situação.
- que situação?
- o meu irmão se matou.
Sócrates aponta para Danilo.
- ele é o terapeuta.
Ceix solta um suspiro.
- então podemos começar?
O terapeuta levanta-se.
- vamos iniciar a jornada.
...
Cena 4
...
(Monólogo ceix)
Eu sou um príncipe.
Cresci num reino diferente.
Lua é rosa.
Sempre aparece no mar.
Casei-me com Alcione.
Uma bela ninfa.
Também tenho um irmão.
No caso, tive.
Seu nome é André.
Ele era bardo.
Queria ser famoso.
Meus pais não queriam.
Ele devia ser o que é.
Futuro rei seu reino.
André não queria.
Vários embates aconteceram.
Alcione tentou ajudá-lo.
Meus pais foram irredutíveis.
O prenderam numa torre de marfim.
Queriam fazê-lo desistir da ideia.
Ele ficou melancólico.
Não queria comer.
Não tomava banho.
Suspirava pela Lua Rosa.
Cantava baladas tristes.
Intercedi por ele.
Nada foi feito.
Uma noite, houve um eclipse.
Ele se atirou janela.
Lua se tingiu sangue.
Meus pais ficaram arrependidos.
Reino se comoveu com isso.
Seu espírito ficou entre nós.
Ele canta nas noites vazias.
Podemos ouvi-lo chorar.
Nada foi como antes.
...
Cena 5
...
Céu norte já declina.
Danilo arruma suas coisas.
Ceix olha para ele.
- onde você vai?
- eu vou para casa.
- porque?
- sua história me deixou triste.
- o que eu faço?
- fale com Sócrates.
Danilo vai embora.
Ceix repara no filósofo.
- você pode me ajudar?
Sócrates cheira uma rosa.
- o que você quer?
- como posso ajudar meu irmão?
- ele é morto.
- então que ele encontre a paz.
Sócrates olha o horizonte.
- mande-o até mim.
Ele vai embora.
...
Ato 2
...
Cena 1
...
Sócrates canta uma música.
O leitor estranha.
Este comportamento não é digno dele.
Música é digna.
Ela purifica alma.
Filósofo não se furta isso.
A música Para.
André chega até ele.
Arrasta sua corrente.
Se joga no divã.
Olha Sócrates.
- eu quero um whisky.
- aqui não temos isso.
- então me dá um conhaque.
- também não temos.
- o que você tem?
- conselhos para lhe dar.
- você tem um conselho para isto?
André mostra corrente.
- saia desta caverna.
- isto não é Platão?
- sim.
- vocês filósofos são estranhos.
- isto vindo de um fantasma.
- eu posso te assustar.
- esqueceu que já morri?
- é verdade.
- pois você não pode me ajudar.
- porque não?
- você é como eu.
- eu não sou como você.
- como você é?
- eu sou diferente.
- então me mostre.
- venha comigo.
Os dois saem.
...
Cena 2
...
Dragões voam por aí.
Eles chegam a uma cabana.
André olha ao redor.
- que lugar é esse?
- a minha casa.
Eles entram nela.
Sócrates abraça fenarete.
- olá, mãe.
- como vai, Sócrates?
- este é um amigo, André.
Fenarete olha corrente.
- pelo visto és um fantasma.
- isto é elementar.
Sócrates oferece vinho a ele.
- minha mãe é parteira.
- interessante.
- ela vai fazer o seu parto.
André engasga com vinho.
- o que?
- o parto suas dores.
Fenarete o conduz a uma cama.
- deite-se aí.
Ele olha para Sócrates.
Este o tranquiliza.
- não tenha medo.
André deita-se.
Parteira ajoelha ao seu lado.
- agora feche os olhos.
Ele fecha os olhos.
Ela põe suas mãos na cabeça dele.
Faz uma prece intraduzivel.
André cai nos braços do sono.
...
Cena 3
...
O fantasma acorda.
Olha ao seu redor.
Vê um homem ao seu lado.
Este trabalha numa argila.
Molda uma estátua.
Ele olha para André.
- que bom que acordou.
- quem é você?
- eu sou sofronisco.
- quem?
- o pai Sócrates.
- porque eu estou aqui?
- porque você quis estar.
- eu não quis isso.
- inconscientemente não.
- do que você está falando?
Sofronisco se volta para argila.
Ele molda um guerreiro.
André aprecia o trabalho.
- eu estou sonhando?
- sim.
- o que isto significa?
- o que você quiser.
- eu não entendo nada.
- não é para entender.
- achei que morrer me ajudaria.
- a vida continua além disto.
- o que eu faço?
- seja você mesmo.
- como eu faço isso?
- veja o meu filho.
- ele também morreu.
- ele viveu na sua essência.
André olha estátua.
- será que eu tenho uma?
- isso só você pode saber.
- eu estou com sono.
- durma, e tudo ficará melhor.
André volta dormir.
...
Cena 4
...
Nosso personagem acorda.
Ceix está ao seu lado.
- como você está?
- eu não sei.
- você ainda está triste?
- eu quero ir para casa.
- então vá em paz.
- eu vou tentar.
Os dois se abraçam.
André vai embora.
Alcione chega.
- como ele está?
- confuso.
- dê tempo a ele.
- será que os deuses nos castigam?
- porque?
- creio que nunca seremos felizes.
- não diga isso.
Os dois se beijam.
- vamos embora daqui.
- para não mais voltar.
Eles saem de cena.
...
Cena 5
...
Alcione caminha a beira mar.
As ondas terminam em espuma.
O vento brinca n'areia.
Ela olha o horizonte.
Pensa no marido.
Seu amor foi invejado.
Zeus e hera se chamavam.
Os deuses não gostaram.
Ela lembra tudo.
Ceix precisou ir ao mar.
Consultar um oráculo.
Uma tempestade o alcançou.
Destruído foi seu barco.
N'oceano seu corpo ficou.
Feita foi a vingança.
Alcione ficou triste.
Para junto seu amado foi.
O resto é história.
...
Ato 3
...
Cena 1
...
Na areia praia Danilo descansa.
Perto dele Sócrates chega.
- e então o que achou?
- tudo isto estranho é.
Os seus pés as espumas tocam.
O horizonte Danilo olha.
O seu ombro Sócrates toca.
- está na hora de ir.
- quem?
- eu.
- para onde?
- para outro lado.
- que lado?
- um que você ainda não conhece.
- eu não entendo.
- venha comigo, e você entenderá.
...
Cena 2
...
Eles chegam a um salão.
Há uma mesa.
Algumas cadeiras espalhadas.
Sofronisco e fenarete lá estão.
Um cálice está sobre a mesa.
Danilo olha cena.
- o que isso significa?
- eu já disse, preciso ir embora.
De repente, ele entende.
- você já não fez isso?
- sim.
- porque fazer isto novamente?
- porque as pessoas precisam saber.
- saber o que?
- que a história é circular.
Sofronisco olha para Danilo.
- não há nada novo sob o sol.
Fenarete vai até Sócrates.
Ela o abraça.
Sofronisco faz o mesmo.
- que o seu renascimento seja puro.
Danilo não crê no que vê.
- vocês vão deixar isso acontecer?
Sócrates observa ele.
- eu voltarei em breve.
O filósofo senta-se a mesa.
Pega o cálice.
Toma o veneno.
Uma sonolência toma conta dele.
Seu corpo se ilumina.
Ele sai de cena.
Os pais dele acenam para Danilo.
Vão embora dali.
Ele fica só.
No meio do silêncio.
...
Cena 3
...
Danilo viaja de trem.
Ele olha paisagem.
Flor de cerejeira.
Céu limpo.
Chega na estação.
Pessoas ao redor.
Um clima suave.
Ele olha o relógio.
As horas não passam.
Tudo continua o mesmo.
Danilo vai ao museu.
Vê um busto de Sócrates.
Pensa no que aconteceu.
Vai até um café.
Pede um capuccino.
Olha pela janela.
Um rouxinol no Salgueiro.
Sol ilumina praça.
Ele vai até lá.
Senta-se num banco.
Pega um livro.
Se perde no tempo.
...
Cena 4
...
Ceix & Alcione estão no jardim.
Já é noite.
Lua ilumina fonte.
Ceix bebe da fonte.
Eles continuam a jornada.
Vão até o monte Olimpo.
Zeus os recebe.
- Que bom que vocês estão aqui.
Ceix se curva perante o rei dos deuses.
- ele está aqui?
- sim.
André aparece a ele.
Os dois se abraçam.
Ele também abraça Alcione.
- minha hora chegou.
Zeus aponta para ele.
- que você ressuscite do submundo.
André acena para eles.
Agradece a zeus.
Vai embora.
O rei dos deuses os convida para ceia.
Trovões ecoam ao longe.
...
Cena 5
...
Danilo volta ao seu consultório.
Os papéis são trocados.
Ele está no divã.
Sócrates o entrevista.
- como é estar aí?
- é como estar em lugar nenhum.
- você quer sair daí?
- eu não quero ficar aqui.
- eu pensei isto na prisão.
- como você aguentou?
- eu não pensei na prisão.
- no que você pensou?
- na minha liberdade.
- você é livre?
- sim.
- o que você vai fazer?
- olhar por você do outro lado.
Sócrates agradece a Danilo.
Ele vai embora.
Danilo abre a janela.
Vê o céu.
Um pássaro cruza o horizonte.
Ele tira a sua roupa.
Deixa ajeitado na cadeira.
Senta-se na janela.
Olha uma nuvem ao longe.
Mergulha no infinito.
...
(Fim)