Capítulo 1
Eu cheguei num ponto de minha vida que tudo está bem assim.
Eu ganhei muitas coisas e também perdi outras pelo caminho.
E isto eu digo porque ele me abandonou.
Tudo vem à tona numa noite de frio como esta.
Eu caminhava pela rua quando vi Milo no meio do caminho.
Ele era tão lindo e parecia perdido naquela neblina.
- Posso ajudar você?
- Eu queria chegar num lugar onde eu espero alguém. Você pode me ajudar?
- Eu posso sim.
Não me lembro mais para onde ele ia, nem quem ia encontrar.
Só sei que este foi o começo de minha história de amor.
Capítulo 2
Depois de algum tempo, eu fui ao shopping e lá encontrei Milo novamente.
Ele tinha um namorado e ambos discutiam.
Ele me olhou de forma desconfiada e eu não quis ser mais inoportuno do que já era.
Fui tomar sorvete e de repente alguém toca em meu ombro.
- Oi. Você está bem?
- Sim e você?
- Eu estou bem, obrigado.
- Que ótimo. Não esperava encontrar você tão cedo.
- Eu também não.
- Vi que você estava a conversar de forma intensa com aquele rapaz e não quis te atrapalhar.
- Você não atrapalha nada que já não esteja atrapalhado por natureza. Nós terminamos.
- Ah tá. Eu sinto muito por vocês. Sei como é.
- Não sinta. Isto já estava para acontecer em algum momento.
- Compreendo. Eu me chamo Breno.
- Eu sou Milo.
- Bonito nome seu.
- Obrigado.
- Você quer sorvete?
- Eu quero sim. Preciso colocar um pouco de doce em minha vida.
E aquele foi o começo duma nova história de amor.
De nossos encontros e desencontros.
Capítulo 3
Andamos por muitos lugares e situações.
Cada dia era uma nova conexão.
Um novo cheiro, um novo sabor, uma nova cor.
Várias portas se abriram para nós.
Seus cabelos são tão cheirosos e macios. Ondas que hipnotizam meu olhar e me fazem pensar naquelas estátuas gregas de perfeição tão divina.
Sua boca macia e vermelha que tanta alegria me deu.
Mas por algum motivo nos perdemos no meio do caminho.
Agora volto no tempo na tentativa de encontrar a encruzilhada que passamos e que separou nossos destinos.
Uma folha de outono desfila pelo meu quintal e cai aos meus pés enquanto tomo uma xícara de café sentado naquele balanço que me alegrou na minha infância.
Testemunha de tantos gritos e sussurros, ele agora me acalenta nesta tarde tão calida onde me perco em pensamentos.
Milo aqui me beijou.
Ele acariciava meus cabelos enquanto fazíamos planos para o futuro não muito distante.
Capítulo 4
Numa tarde fria eu continuo perdido em meus pensamentos.
Ele não está ao meu lado.
Mas eu estou no sentimento dele.
Quando fui ao cemitério visitar o túmulo de minha mãe, eu pensava que agora sim, estou sendo feliz.
Mesmo depois de tanto tempo, resolvi dar uma chance para mim mesmo.
Conversei com o espírito dela, e tive a certeza que estava no bom caminho.
Obviamente, ela não me respondeu.
Só na minha imaginação.
Uma árvore dourada pela tarde de outono transborda suas folhas naquele chão ladrilhado.
E quando vento acaricia minha face, e uma lágrima flutua pelo ar, sei que é a minha hora.
Capítulo 5
Hoje a tarde eu recebi uma notícia ruim.
Amigos em comum me ligaram e disseram que Milo foi assassinado.
Celular caiu da minha mão.
Eu fiquei mudo, sem saber o que dizer e o que fazer.
Naquele dia eu chorei tanto como nunca antes na minha vida.
Depois do funeral, eu perguntei o que aconteceu.
Milo tinha ido a uma festa qualquer com quatro amigos, e lá ele foi ao banheiro.
Demorou muito.
Os amigos foram ver e ele estava caído, com uma adaga no coração.
Tinha sido várias vezes esfaqueado.
Depois de muito tempo, a polícia não descobriu nada e o caso foi encerrado.
Mas eu não me dei por satisfeito e então contratei alguém que iria esclarecer tudo isso. Seu nome é Melanie Milton.
Capítulo 6
Melanie Milton é uma personagem muito particular.
Ela mora numa casa com três gatos (Athos, Portos e Aramis).
É lésbica e namora com uma garota mexicana (Frida) que nunca viu pessoalmente.
Nome da namorada mexicana dela é meio clichê, vocês não acham?
Sua mãe morreu a cinco anos.
E não fala com o pai.
É jornalista freelancer.
Gosta de livros de mistério.
Outro clichê literário.
E seu personagem preferido é Tom Silver.
Eu a convido pra um chá.
Ela aceita.
- Como você me encontrou?
- Pelo seu blog de histórias.
- Compreendo. O que você quer?
- Sua ajuda num caso.
Então conto tudo a ela.
- Ótimo. Quero o nome dos quatro amigos dele na ocasião.
Então vamos lá.
1. Pablo Rios - poeta que ama língua espanhola, ex - namorado de Milo.
2. Cristina Mendonça - advogada, amiga do Milo desde a infância.
3. Julian Silva - mágico, marido da Cristina.
4. Carol Kowalski - patinadora, prima do Milo.
Melanie anota os nomes.
- Muito bem então. Agora só mais uma coisa.
- O que?
- Eu quero nome do último namorado dele antes de você.
- Tudo bem então.
* Claudio Sales - arquiteto.
Perfeito.
Que os jogos comecem
(Citação de Melanie Milton)
Capítulo 7
(Anotações de Melanie Milton)
Para todos aqueles que interessarem, meu método de trabalho é baseado no realismo mágico. Não precisa crer.
É só se deixar levar.
E tudo você pode encontrar.
Com este novo caso, meu tédio vai embora por um tempo.
Não é, meu bebê?
(Melanie acaricia Athos que está aos seus pés)
Muito bem então.
Eu vou começar por Cláudio Sales.
Capítulo 8
(Entrevista com Cláudio Sales)
- Olá. Meu nome é Melanie Milton. Sou detetive e fui contratada para solucionar o assassinato de Milo Borba.
Posso falar com você?
- O que eu tenho a ver com isso?
- Tirando que você foi namorado dele então não tem nada.
- Isso faz de mim culpado?
- Isso não faz de você inocente.
- Gostei de você.
- Então vamos começar.
- Não seria conversar?
- Meu método é diferente.
- Cada vez mais interessante.
- Encoste sua cabeça na poltrona e feche os olhos.
Claudio faz o que ela pede e Melanie impõe suas mãos sobre ele e também fecha os olhos.
LEMBRANÇA DE CLÁUDIO
rua agitada e chuvosa
Claudio e Milo brigam.
Milo vai embora.
Claudio vê ele ao longe com Breno. Os dois conversam.
Claudio vai pra casa furioso.
Ele quebra tudo.
Alguns dias se passam.
No dia da festa ,Claudio vê Milo no local.
Milo vai ao banheiro.
Claudio o segue e bate na porta.
A porta se abre e...
Claudio acorda.
O que foi que vc viu?
Hum. Isto é interessante.
O que?
Você teve um choque. Não hora que abriu a porta do banheiro, você deletou esta imagem de sua mente.
Eu não tenho culpa. O que você queria que eu fizesse?
Nada. Isto dá o que pensar. Até mais então.
Capítulo 9
(Entrevista com Pablo Rios)
Yo no puedo ayudarte en nada.
Como no puedes?
Hum, ella habla Español.
Por supuesto que si.
Muy bien.
Vamos deixar de brincadeira.
Eu não brinco.
Espanhol é a minha vida.
Bom pra vc. E investigar é a minha vida.
O que você quer?
Eu já disse.
Muito bem então.
No pensamento de Melanie, ela observa a casa do Pablo.
Percebe uma forte influência espanhola, com estatuetas de toureiros, um quadro com a bandeira espanhola, cartazes de filmes de Almodóvar e vários discos de flamenco.
O fluxo de pensamento da detetive é quebrada quando Pablo diz que ouviu falar que ela tem um jeito exótico de investigação.
- Eu tenho sim.
- Ótimo.
- Mas nem sempre uso.
- Hum, interessante.
- Então, vai me contar ou não?
- O negócio é que fomos pra uma festa, uns amigos e eu. Lá, encontramos Milo, e o resto você já sabe.
- Não é muita coincidência tantos ex - amores dele se encontrarem assim num lugar só?
- Eu não sei dizer. Agora, se me dá licença, tenho provas para corrigir.
- Entendi. Até mais então.
Capítulo 10
Em casa, Melanie Milton pensa na sua vida.
Ela faz uma xícara de café.
Liga pra Frida.
Brinca com os gatos.
Lê um livro.
Lava roupa e prato.
Sua rotina é intensa.
E o tédio, próximo.
Às vezes, uma nostalgia se apossa de seu pensamento.
Ela pensa na sua vida antigamente.
E os caminhos que tomou pra chegar até aqui.
(Quebra de fluxo de consciência)
- Eu não posso me afogar em autopiedade.
O que passou, já foi.
Nada é perfeito.
Vida é aqui e agora.
É nisto que tenho que pensar.
E no assassinato que tenho que resolver.
Capítulo 11
Noite está gelada
E o galo canta
Num recanto qualquer.
Eu (Breno) leio
Esta história aqui
Sem a menor noção.
*
Será que esta Melanie
Dá conta do recado?
Eu não sei
Mas alguém tem que
Fazer algo sobre isso.
Não dá mais.
*
Eu olho aqui
Umas fotos nossas
(Minha e do Milo)
E sinto saudades.
Eu me lembro Quando
Meu cabelo ele cortava.
*
Era tão bom.
Agora videogame jogo
Para o tempo passar
E não ter que lembrar
Que neste momento
Ele aqui não está.
*
Eu sinto frio
E me cubro agora
Com nosso lençol.
Seu cheiro ainda está
Em nosso quarto.
Eu posso sentir.
*
Uma lágrima cai
Pela minha face
Como um lembrete
De tudo que foi
E agora já não é
O que será mais.
Capítulo 12
Voltamos a Melanie Milton.
(Entrevista com Cristina Mendonça)
- Então deixa ver se eu entendo. Milo tinha feito um documento passando tudo pra Pablo Rios?
- Isto mesmo.
Ele me pediu.
Então eu fiz.
- Pablo sabia disto?
- Até onde eu saiba, não.
- Hum. Você também estava com ele, naquela festa?
- Eu o encontrei lá.
- Interessante.
Você tinha algum problema com Milo?
- Até onde eu saiba, não.
- E você o encontrou morto, na festa?
- Sim. Eu escutei uma confusão, e fui ver o que era.
O resto você já sabe.
- Entendi.
- Mais alguma pergunta?
- Por enquanto não. Obrigado.
Capítulo 13
(Entrevista com Julian Silva)
Eu não queria
Ir pra aquele lugar.
Só fui por causa
De Cristina.
Eu não conheço
Milo muito bem.
*
Ela queria falar
Com ele urgentemente.
Então eu acompanhei
Naquela festa.
O resto você já sabe.
Foi tudo confuso.
*
Melanie pensa
Que isso é interessante.
Cristina não falou
Que tinha ido ver
Milo pra falar com ele.
Há algo estranho.
*
Capítulo 14
(Uma morte inesperada)
Melanie Milton morreu.
Sua namorada mexicana
A encontrou sem vida
Dentro da sua casa.
Isto foi muito
Impactante pra mim.
*
Aqui quem vos fala
É Breno, o protagonista
Que foi no começo
E agora voltou a ser.
Pelo que vejo
Terei que investigar.
*
Pouco antes de morrer
Melanie enviou-me
Algumas anotações
De suas investigações.
Achei isto estranho.
Telefonei mas ninguém atendeu.
*
Agora eu já sei porque.
Estou lendo tudo
Que ela me enviou.
E está história
É cada vez mais complicada.
Capítulo 15
(Patinando com Carol)
Minha dor de cabeça
Está de volta.
Num domingo quieto
Minha mente não pára.
Mas eu tenho
Que continuar isso.
*
Na pista de gelo
Carol patina com desenvoltura.
Ela é muito boa nisso.
Milo sempre me falava
Dela e dos seus talentos.
Principalmente na cama.
*
Eu morria de ciúmes
Quando ele me contava isso.
Ele falava que era
Coisa de adolescente.
Mas eu não sei.
Tudo é confuso.
*
- O que vc quer?
- Falar com vc.
- Sobre o Milo?
- Sim.
- Eu já contei tudo pra polícia.
- Mas vc não me disse nada.
*
- Nós fomos a festa e lá aconteceu o que você já sabe.
- Nada mais?
- Claudio havia chegado antes de todos nós. Ele estava estranho.
- Estranho como?
- Eu não sei, é uma sensação.
- Compreendo. Você ainda sentia algo por ele?
(Carol olha forma vazia pra Breno)
- Com licença, eu tenho que treinar.
Capítulo 16
(De repente, num sonho)
Agora eu durmo
Num sono profundo
Quando sonhei com ela
Num cenário estranho
Dum mundo perdido.
*
- O que aconteceu com vc?
- Foi um ataque cardíaco.
Toda minha família sofre
De problema no coração.
Foi questão de tempo.
Você quer um café?
- Não, obrigado.
- Tudo bem então.
- Você descobriu alguma coisa?
- Até agora não.
É tudo tão complicado.
- Pois é meu amigo.
Bem-vindo ao mundo dos detetives.
- Eu já não sei mais se quero isso.
- Você vai deixar o assassinato de Breno em vão?
- Eu não sei o que pensar.
Isto começa como uma história de detetive.
E agora é uma coisa filosófica.
- Compreendo. Só tem um jeito.
- Qual?
- Leia o próximo capítulo.
- Vamos lá então.
Capítulo 17
(Deus Ex Machina)
Como narrador, eu escrevi
Até agora sem uma
Direção a seguir.
Mas agora tudo se esclarece
E a história se conclui.
*
Milo vai numa festa
Para se distrair.
Mas o que ele não sabe
É que Pablo nunca o esqueceu.
E não iria perde-lo.
*
Já Cristina se descobre
Apaixonada por ele
E resolve se declarar.
Mas Julian lê o seu diário
E decide impedir isso.
*
Carol passa uma noite com Milo
E os dois brigam.
Ela não aceita perde-lo
Para Breno e então
Ele não será demais ninguém.
*
Não podemos esquecer
De Cláudio, um personagem
Que aparenta estar distante
Mas está mais perto
Que podemos imaginar
*
No dia da festa
Milo vai ao banheiro
Alguém bate na porta
Ele vê que é Claudio
Os dois discutem
*
Claudio sai furioso
Quando Pablo chega
E tenta beija-lo
Milo se nega
E Pablo o ameaça
Com uma adaga
*
Pablo se arrepende
Ele vai embora
E joga adaga fora
Cristina chega então
E se declara pra ele
*
Julian chegou na hora
E ouve tudo
Ele quer bater em Milo
Cristina briga com ele
E ambos vão embora
*
Carol vê esta cena
E percebe que não dá
Para competir com tanta gente
E decidi ir embora
Agora só falta você
Não é, Breno?
Capítulo 18
(Eu, eu mesmo e minha raiva)
Eu enganei a todos?
Eu não sei.
Tentei fazer o meu melhor.
Você me deixou, Milo.
Eu te amei demais.
Investi muito em vc.
E não te perderia assim.
No dia da festa, eu segui Milo.
Vi ele e Pablo brigando.
Vi adaga jogada fora.
Eu a peguei.
Mas cada vez que eu tentava chegar perto, os outros apareciam. E eu me escondia.
Depois de tudo isso.
Minha raiva só aumenta.
E quando ele sai do banheiro e me vê, eu não digo nada.
Apenas faço o que fiz.
Ele cai morto
Eu pego um lenço.
E limpo a adaga.
Vou embora dali.
E escuto a confusão toda.
Depois, recebo a notícia.
Tenho que disfarçar.
E o resto vocês já sabem.
Ninguém pode fazer nada.
Só vocês e eu sabemos.
Esta história termina aqui.
E eu mudo de personagem.
Ninguém mais me achará
Adeus a todos.
FIM.