...
Cena 1
...
Uma sala de atendimento.
Tudo é arrumado.
Entra Danilo.
Ele é terapeuta.
Sua consulta vai começar.
Ele olha agenda.
Fica espantado.
Olha o leitor.
- eu não acredito nisso.
Confere a agenda.
- isto é um sonho.
Chama a secretária.
Ela entra.
- pois não?
- chame o paciente, por favor.
- pois não.
A secretária sai.
Sócrates entra.
Filosófico como sempre.
Danilo o cumprimenta.
- é uma honra ter o senhor aqui.
- a honra é toda minha.
- sente-se, por favor.
Sócrates senta-se.
Danilo olha para o leitor.
- isto é demais, vocês não acham?
O filósofo presta atenção nele.
- o que é demais?
- você aqui comigo.
- isto não é nada demais.
- para nós é sim.
- nós quem?
- eu e os leitores deste livro.
Sócrates observa ao seu redor.
- nós estamos dentro de um livro?
- com certeza sim.
- isto é interessante.
- você não vê?
- por enquanto não.
- porque?
- só sei que nada sei.
- tudo bem então vamos começar?
- sim.
- porque você está aqui?
- porque viajo pelo tempo e espaço.
- você é imortal?
- todos nós somos imortais.
- o que você acha deste tempo atual?
- ele é interessante.
- em que sentido?
- a maioria está na caverna de Platão.
Sócrates pega uma lanterna.
A luz se apaga.
Ele acende a lanterna.
Olha para Danilo.
- o que você vê?
- a escuridão.
- onde você está nesta escuridão?
- eu estou aqui.
- você conhece a si mesmo?
Danilo pega um livro.
Folheia ele.
Não entende o que é escrito.
Fecha o livro.
- eu acho que não.
- isso é bom.
A luz volta.
Sócrates apaga lanterna.
Danilo olha para ele.
- e você se conhece?
- com certeza não.
Sócrates levanta cadeira.
Deita-se no chão.
Danilo vai até ele.
- o que você está fazendo?
- eu vou dormir.
- porque?
- para sonhar com um mundo novo.
- o que eu faço?
- durma comigo também.
- isso vai me ajudar?
- sim.
- tá bom então.
Danilo deita-se junto a Sócrates.
Os dois dormem.
Ana chega com dois lençóis.
Ela é a secretária do Danilo.
Cobre os dois.
Apaga luz do escritório.
Sai e fecha porta.
...
Cena 2
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Os dois acordam.
Dão bom dia um ao outro.
Sócrates vai ao divã.
Danilo para sua mesa.
Ele chama sua secretária.
Ana chega.
- bom dia, o que deseja?
- dois copos d'água, por favor.
- pois não.
Ela sai da sala.
Sócrates olha para Danilo.
- e então, o que achou?
- o que achei do que?
- do sonho.
- eu não sonhei.
- não?
- não.
- Ah, que pena.
- porque?
Ana chega com água.
- aqui está água.
- obrigado.
- de nada, com licença.
Ana recolhe os lençóis.
Ela sai novamente.
Danilo oferece água a Sócrates.
Ele aceita e agradece.
Os dois bebem água.
O terapeuta pega caderno e caneta.
Olha para Sócrates.
- porque é uma pena não ter sonhado?
O filósofo olha o teto.
- porque a vida é um sonho.
Danilo anota algo no caderno.
- este momento é um sonho?
- sim.
- nós acabamos de acordar.
- sonho não dorme.
Ele anota outra coisa no caderno.
Sócrates levanta-se.
- eu vi que aqui tem um jardim.
- sim.
- então venha comigo.
- porque?
- quero te mostrar uma coisa.
Os dois saem consultório.
...
Cena 3
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Há um jardim lá fora.
Os dois passeiam entre as flores.
Danilo cheira uma rosa.
- o que você quer me mostrar?
Sócrates aponta para um lugar.
Dois rapazes sentados num banco.
Eles estão se beijando.
Danilo olha cena.
- o que você quer dizer?
- você gosta disto?
- disto o que?
- não se faça de desentendido.
- a vida é deles.
- a vida é sua também.
Os dois sentam-se num banco.
- isto foi há muito tempo.
- você não esqueceu.
- não.
- você sabe porque me matei?
- obrigaram você a isso.
- um motivo eu tive.
- qual é?
- eu não nego a vida.
- você acha que Eu nego a vida?
- você nega o amor.
- isto é absurdo.
Entra em cena ceix.
Um personagem mitológico.
Ele fará parte desta crônica.
- olá.
Ambos olham para ele.
Danilo toma dianteira.
- quem é você?
- meu nome é ceix.
Sócrates complementa o diálogo.
- o que você quer?
- entender uma situação.
- que situação?
- o meu irmão se matou.
Sócrates aponta para Danilo.
- ele é o terapeuta.
Ceix solta um suspiro.
- então podemos começar?
O terapeuta levanta-se.
- vamos iniciar a jornada.
...
Cena 4
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(Monólogo ceix)
Eu sou um príncipe.
Cresci num reino diferente.
Lua é rosa.
Sempre aparece no mar.
Casei-me com Alcione.
Uma bela ninfa.
Também tenho um irmão.
No caso, tive.
Seu nome é André.
Ele era bardo.
Queria ser famoso.
Meus pais não queriam.
Ele devia ser o que é.
Futuro rei seu reino.
André não queria.
Vários embates aconteceram.
Alcione tentou ajudá-lo.
Meus pais foram irredutíveis.
O prenderam numa torre de marfim.
Queriam fazê-lo desistir da ideia.
Ele ficou melancólico.
Não queria comer.
Não tomava banho.
Suspirava pela Lua Rosa.
Cantava baladas tristes.
Intercedi por ele.
Nada foi feito.
Uma noite, houve um eclipse.
Ele se atirou janela.
Lua se tingiu sangue.
Meus pais ficaram arrependidos.
Reino se comoveu com isso.
Seu espírito ficou entre nós.
Ele canta nas noites vazias.
Podemos ouvi-lo chorar.
Nada foi como antes.
...
Cena 5
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Céu norte já declina.
Danilo arruma suas coisas.
Ceix olha para ele.
- onde você vai?
- eu vou para casa.
- porque?
- sua história me deixou triste.
- o que eu faço?
- fale com Sócrates.
Danilo vai embora.
Ceix repara no filósofo.
- você pode me ajudar?
Sócrates cheira uma rosa.
- o que você quer?
- como posso ajudar meu irmão?
- ele é morto.
- então que ele encontre a paz.
Sócrates olha o horizonte.
- mande-o até mim.
Ele vai embora.
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Ato 2
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Cena 1
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Sócrates canta uma música.
O leitor estranha.
Este comportamento não é digno dele.
Música é digna.
Ela purifica alma.
Filósofo não se furta isso.
A música Para.
André chega até ele.
Arrasta sua corrente.
Se joga no divã.
Olha Sócrates.
- eu quero um whisky.
- aqui não temos isso.
- então me dá um conhaque.
- também não temos.
- o que você tem?
- conselhos para lhe dar.
- você tem um conselho para isto?
André mostra corrente.
- saia desta caverna.
- isto não é Platão?
- sim.
- vocês filósofos são estranhos.
- isto vindo de um fantasma.
- eu posso te assustar.
- esqueceu que já morri?
- é verdade.
- pois você não pode me ajudar.
- porque não?
- você é como eu.
- eu não sou como você.
- como você é?
- eu sou diferente.
- então me mostre.
- venha comigo.
Os dois saem.
...
Cena 2
...
Dragões voam por aí.
Eles chegam a uma cabana.
André olha ao redor.
- que lugar é esse?
- a minha casa.
Eles entram nela.
Sócrates abraça fenarete.
- olá, mãe.
- como vai, Sócrates?
- este é um amigo, André.
Fenarete olha corrente.
- pelo visto és um fantasma.
- isto é elementar.
Sócrates oferece vinho a ele.
- minha mãe é parteira.
- interessante.
- ela vai fazer o seu parto.
André engasga com vinho.
- o que?
- o parto suas dores.
Fenarete o conduz a uma cama.
- deite-se aí.
Ele olha para Sócrates.
Este o tranquiliza.
- não tenha medo.
André deita-se.
Parteira ajoelha ao seu lado.
- agora feche os olhos.
Ele fecha os olhos.
Ela põe suas mãos na cabeça dele.
Faz uma prece intraduzivel.
André cai nos braços do sono.
...
Cena 3
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O fantasma acorda.
Olha ao seu redor.
Vê um homem ao seu lado.
Este trabalha numa argila.
Molda uma estátua.
Ele olha para André.
- que bom que acordou.
- quem é você?
- eu sou sofronisco.
- quem?
- o pai Sócrates.
- porque eu estou aqui?
- porque você quis estar.
- eu não quis isso.
- inconscientemente não.
- do que você está falando?
Sofronisco se volta para argila.
Ele molda um guerreiro.
André aprecia o trabalho.
- eu estou sonhando?
- sim.
- o que isto significa?
- o que você quiser.
- eu não entendo nada.
- não é para entender.
- achei que morrer me ajudaria.
- a vida continua além disto.
- o que eu faço?
- seja você mesmo.
- como eu faço isso?
- veja o meu filho.
- ele também morreu.
- ele viveu na sua essência.
André olha estátua.
- será que eu tenho uma?
- isso só você pode saber.
- eu estou com sono.
- durma, e tudo ficará melhor.
André volta dormir.
...
Cena 4
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Nosso personagem acorda.
Ceix está ao seu lado.
- como você está?
- eu não sei.
- você ainda está triste?
- eu quero ir para casa.
- então vá em paz.
- eu vou tentar.
Os dois se abraçam.
André vai embora.
Alcione chega.
- como ele está?
- confuso.
- dê tempo a ele.
- será que os deuses nos castigam?
- porque?
- creio que nunca seremos felizes.
- não diga isso.
Os dois se beijam.
- vamos embora daqui.
- para não mais voltar.
Eles saem de cena.
...
Cena 5
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Alcione caminha a beira mar.
As ondas terminam em espuma.
O vento brinca n'areia.
Ela olha o horizonte.
Pensa no marido.
Seu amor foi invejado.
Zeus e hera se chamavam.
Os deuses não gostaram.
Ela lembra tudo.
Ceix precisou ir ao mar.
Consultar um oráculo.
Uma tempestade o alcançou.
Destruído foi seu barco.
N'oceano seu corpo ficou.
Feita foi a vingança.
Alcione ficou triste.
Para junto seu amado foi.
O resto é história.
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Ato 3
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Cena 1
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Na areia praia Danilo descansa.
Perto dele Sócrates chega.
- e então o que achou?
- tudo isto estranho é.
Os seus pés as espumas tocam.
O horizonte Danilo olha.
O seu ombro Sócrates toca.
- está na hora de ir.
- quem?
- eu.
- para onde?
- para outro lado.
- que lado?
- um que você ainda não conhece.
- eu não entendo.
- venha comigo, e você entenderá.
...
Cena 2
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Eles chegam a um salão.
Há uma mesa.
Algumas cadeiras espalhadas.
Sofronisco e fenarete lá estão.
Um cálice está sobre a mesa.
Danilo olha cena.
- o que isso significa?
- eu já disse, preciso ir embora.
De repente, ele entende.
- você já não fez isso?
- sim.
- porque fazer isto novamente?
- porque as pessoas precisam saber.
- saber o que?
- que a história é circular.
Sofronisco olha para Danilo.
- não há nada novo sob o sol.
Fenarete vai até Sócrates.
Ela o abraça.
Sofronisco faz o mesmo.
- que o seu renascimento seja puro.
Danilo não crê no que vê.
- vocês vão deixar isso acontecer?
Sócrates observa ele.
- eu voltarei em breve.
O filósofo senta-se a mesa.
Pega o cálice.
Toma o veneno.
Uma sonolência toma conta dele.
Seu corpo se ilumina.
Ele sai de cena.
Os pais dele acenam para Danilo.
Vão embora dali.
Ele fica só.
No meio do silêncio.
...
Cena 3
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Danilo viaja de trem.
Ele olha paisagem.
Flor de cerejeira.
Céu limpo.
Chega na estação.
Pessoas ao redor.
Um clima suave.
Ele olha o relógio.
As horas não passam.
Tudo continua o mesmo.
Danilo vai ao museu.
Vê um busto de Sócrates.
Pensa no que aconteceu.
Vai até um café.
Pede um capuccino.
Olha pela janela.
Um rouxinol no Salgueiro.
Sol ilumina praça.
Ele vai até lá.
Senta-se num banco.
Pega um livro.
Se perde no tempo.
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Cena 4
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Ceix & Alcione estão no jardim.
Já é noite.
Lua ilumina fonte.
Ceix bebe da fonte.
Eles continuam a jornada.
Vão até o monte Olimpo.
Zeus os recebe.
- Que bom que vocês estão aqui.
Ceix se curva perante o rei dos deuses.
- ele está aqui?
- sim.
André aparece a ele.
Os dois se abraçam.
Ele também abraça Alcione.
- minha hora chegou.
Zeus aponta para ele.
- que você ressuscite do submundo.
André acena para eles.
Agradece a zeus.
Vai embora.
O rei dos deuses os convida para ceia.
Trovões ecoam ao longe.
...
Cena 5
...
Danilo volta ao seu consultório.
Os papéis são trocados.
Ele está no divã.
Sócrates o entrevista.
- como é estar aí?
- é como estar em lugar nenhum.
- você quer sair daí?
- eu não quero ficar aqui.
- eu pensei isto na prisão.
- como você aguentou?
- eu não pensei na prisão.
- no que você pensou?
- na minha liberdade.
- você é livre?
- sim.
- o que você vai fazer?
- olhar por você do outro lado.
Sócrates agradece a Danilo.
Ele vai embora.
Danilo abre a janela.
Vê o céu.
Um pássaro cruza o horizonte.
Ele tira a sua roupa.
Deixa ajeitado na cadeira.
Senta-se na janela.
Olha uma nuvem ao longe.
Mergulha no infinito.
...
(Fim)
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