domingo, 12 de abril de 2026

as aventuras de Antônia

(Capítulo 01)

Já é madrugada.
Antônia fuma um cigarro.
As cinzas caem no chão.
Ela bebe algo.
Álbum de fotos no colo.
Ela vê uma imagem.
Um homem sorridente.
Antônia esfrega os olhos.
Um leve fungado.
Fazem oito meses.
Ela lembra tudo.
Uma corrida por aí.
Um pneu furado.
Uma batida no muro.
Um funeral a fazer.
Um lado vazio na cama.

(Capítulo 02)

O sino toca.
A missa termina.
Antônia vai a praça.
Algodão doce.
Cheiro de pipoca.
Terra molhada exala chuva.
O céu cinzento.
Gente que conversa.
Risos pelo ar.
Ela olha tudo.
Não se identifica com nada.
O cão late.
Ela o acaricia.
A noite chega.
Ela pega um táxi.
Vai embora.

(Capítulo 03)

Um dia nublado.
Antônia na cozinha.
Fogo ligado.
Seu olhar perdido.
Café na mesa.
Ela limpa o rosto.
Bochecha molhada.
Lágrima no chão.
Antônia escuta o silêncio.
Pensamento está nele.
Lembrança de uma briga.
Joga o café na pia.
Pega a chave.
Sai porta afora.
Ela treme de frio.
Buzinas dos carros.
Uma árvore na calçada.
Cai uma folha.
Antônia pega a folha.
Guarda no seu livro.
Aperta o casaco.
Pega o bonde.
Um menino na frente.
Brinca com um graveto.
O bonde para.
Alguém desce.
Alguém sobe.
Ela continua.

(Capítulo 04)

Cafeteria aberta.
Algumas mesas ocupadas.
Antônia pede um café.
Ela lê um livro.
Chega um homem.
Pede um sorvete.
Ele prefere morango.
Cheiro chega até ela.
Isto lembra um perfume.
O homem olha pra ela.
Vê o livro.
- eu gosto deste livro.
Antônia olha pra ele.
- é bom sim.
- desculpa atrapalhar vc.
- não se preocupe.
Ele se levanta.
- eu já vou.
- se cuida então.
- boa leitura para você.
- obrigado. Boa escolha.
Ele olha o sorvete.
- sim, é bom. Tchau.
- tchau.
Ele sai.
A porta se fecha.
Antônia olha ele dobrar a esquina.
Ela pede um sorvete de morango.

(Capítulo 05)

Agora já é tarde.
Antônia tá na sala.
Ela lê o mesmo livro.
O telefone toca.
Ela atende.
Uma explosão aconteceu.
O centro da cidade tá em chamas.
Há uma confusão.
Polícia por todo lado.
Prédio em ruína.
Alvoroço na avenida.
Antônia olha pela janela.
Não dá pra ver nada.
Ela põe a mão no coração.
Ele tá acelerado.
Liga TV.
A notícia é dada.
Possível ataque terrorista.
Há vários feridos.
Ainda não se sabe sobre mortos.
Antônia desliga TV.
Olha pro teto.
Se pergunta porque tudo isso.
Ela tenta se acalmar.
Fecha os olhos.
Pratica meditação.

(Capítulo 06)

Uma homenagem é feita.
Várias pessoas morreram.
A cidade está de luto.
Antônia comparece a cerimônia.
Vários discursos são feitos.
Muitos nomes são lidos.
Começa a chover.
Ninguém sai dali.
A cerimônia termina.
Algumas fotos estão no mural.
Ela vai ve-las.
Uma imagem chama atenção.
O homem do sorvete.
Ele está ali.
Uma das vítimas.
Antônia não sabe o que pensar.
Ela aperta sua bolsa.
A chuva ainda cai.
Ela começa a espirrar.
Sabe que uma gripe vem aí.
Passa a mão na foto dele.
Vai embora sem olhar para trás.

(Capítulo 07)

Antônia recebe uma mensagem.
Sua amiga está na cidade.
Ela quer encontrá-la.
As duas vão a uma pizzaria.
- olha como vc está.
- olá, você também está ótima.
As duas se abraçam.
Pedem o cardápio.
- o que você tem feito?
- eu sou advogada.
- que bom, fico feliz por você.
- obrigada.
- e o que você tem feito?
- eu sou escritora.
- legal.
- eu sempre gostei de escrever.
- sim, você é ótima nisto.
- pois é.
- escrevendo algo agora?
- eu vou ao Japão coletar material.
- isso é bom.
- pode ficar ainda melhor.
- como?
- porque você não vem comigo?
Ela toca mão de Antônia.
As duas se olham.
Antônia retira mao.
Toma um gole de vinho.
- eu não posso.
- porque não?
- eu tenho trabalho a fazer.
- você não pode tirar férias?
- você sabe o que passei.
- eu sinto muito.
- além disso, nossa história já passou.
- eu nunca esqueci vc.
Antônia olha pra taça.
- agradeço a gentileza.
- isto não é gentileza.
- por favor, não insista.
A sua amiga respira fundo.
- você continua mesma.
- e você também.
Ela pega sua bolsa, e levanta.
- foi bom encontrar vc.
- não faz isso.
- espero que fique tudo bem.
Antônia segura mão dela.
Ela larga, e vai embora.
Antônia olha pro nada.
O garçom chega.
- mais alguma coisa?
Ela olha pra ele.
- a conta, por favor.

(Capítulo 08)

Antônia acorda cedo.
Ela faz meditação.
Toma um banho.
Prepara o café.
Senta em silêncio.
Sente-se tranquila.
O sol banha a cozinha.
Um pássaro canta na janela.
Ela vai pra o quarto.
Masturba-se.
Toma banho novamente.
Se arruma.
Vai pra o trabalho.

(Capítulo 09)

Antônia volta para casa.
Já é noite.
Ela toma banho.
Janta.
Vai dormir.
Sonha.
Está num bosque.
Seu corpo flutua.
Olha pro lado.
Os pinheiros cheiram.
Vê uma vila.
Se aproxima de uma casa.
Uma senhora está lá.
- olá.
Senhora olha para ela.
- oi.
- que lugar é esse?
- uma vila.
- eu estou morta?
- não.
- o que eu faço aqui?
- alguém quer ver vc.
- quem?
Senhora aponta para uma casa.
Antônia vai até lá.
Ela atravessa a porta.
Um homem está sentado.
Ele olha pra ela.
- você chegou.
- eu te conheço?
- eu não sei.
- o que você quer?
- ela não fala comigo.
- quem?
Ele aponta para uma mulher.
- ela.
- quem é ela?
- minha mãe.
Antônia vai até ela.
Esta mulher conversa com alguém.
Antônia chama, e a toca.
Sua mão atravessa a mulher.
Ela olha pra o homem.
- viu o que eu disse?
Antônia o pega pelo braço.
Leva até a mãe dele.
- porque você não tenta agora?
O homem a chama.
Ele a toca.
Sua mão atravessa o corpo dela.
Nada acontece.
Antônia escuta o vento.
Ela percebe tudo.
- você não sabe o que aconteceu?
- não.
- você está morto.
O homem não diz nada.
Seu rosto é neutro.
Ele volta pra o sofá.
Seu olhar foca na janela.
A senhora reaparece.
- você já fez o seu trabalho.
Toca no rosto de Antônia.
Ela acorda no meio da noite.

(Capítulo 10)

Antônia vai a igreja.
Padre termina missa.
Ele a vê.
- oi, há quanto tempo.
- pois é.
- algum problema?
- não.
- eu soube seu marido.
- já faz um tempo.
- sinto muito por vc.
- obrigado.
- você quer tomar um café?
- sim.
Eles vão a cafeteria.
- está quente hoje.
- sim.
- você não tem ido a missa.
- não tenho vontade.
- não é questão disso.
- não é questão de nada.
- o que você quer?
Antônia segura xícara forte.
- eu quero vc.
O padre engole em seco.
- porque você faz isso comigo?
- porque nós queremos.
Ele toma o seu café.
Os dois saem.
Vão ao apartamento dela.
Eles transam.
Antônia faz um chá.
- era disso que eu precisava.
Ela oferece um chá pra ele.
- você não sente culpa?
- pelo que?
- por isso.
- ele está morto.
- eu sei.
- não há ninguém a culpar.
- só a minha consciência.
- isto é com você.
Ela termina o chá.
Vai tomar banho.
Ele se veste.
- eu já vou.
Som de chuveiro.
Ela aparece nua.
Dá um beijo nele.
- obrigada.
Ele acena com a cabeça.
Ela volta ao banheiro.
Ele vai embora.

(Capítulo 11)

Antônia penteia os cabelos.
Olha cama.
Lençóis usados.
Travesseiro no chão.
Duas taças no tapete.
Janela entreaberta.
Som de moto.
Nenhuma conversa.
Antônia olha pela janela.
Um poste apagado.
Vazio na praça.
Um banco abandonado.
Vento seca seu cabelo.
Um cão late ao longe.
Ela fecha janela.
Anota em seu diário.
Um encontro desejado.
Uma necessidade atendida.
Dor de cabeça.
Água e comprimido.
Sono que chega.
Noite que vai.

(Capítulo 12)

Antônia vai ao confessionário.
Conta o seu sonho de morte.
O padre escuta.
- você costuma ter este sonho?
- não.
- como você se sente?
- eu me lembro o que passei.
- compreendo.
- o que faço?
- não há nada fazer.
- nenhuma oração.
- isto não ajuda.
- é estranho vc dizer isso.
- a vida é estranha.
- vamos tomar um café?
Ele olha os sapatos.
- a resposta não tá aí.
- certo.
Eles saem.
Ja é noite.
O padre observa as pessoas.
- você sente falta?
- do que?
- de quem vc era?
- não.
- porque?
- meu passado não foi bom.
- o de ninguém é.
- eu sei disso.
- pois então.
- eu não gosto dele, simples assim.
- compreendo.
- e você sente falta?
- também não.
- porque?
- não gosto quem sou agora.
- então somos dois.
- sonhei com uma vida diferente.
- sei como é.
Eles passam por um clube de jazz.
Ele escuta música.
- vamos ali?
Ela olha pra ele.
- você tem certeza?
- nos conhecemos há anos.
- eu sei que você gosta disto.
Ele oferece o seu braço.
Ela o aceita.
Eles entram no club.
Tomam uns drinks.
Dançam um pouco.
Vão para o parque.
Sentam na grama.
Noite estrelada.
Antônia toca mão dele.
- obrigada por esta noite.
O padre acaricia os seus cabelos.
- eu que agradeço.
Dá um beijo na testa dela.
Ela encosta cabeça no ombro dele.
A lua ilumina fonte.



Nenhum comentário:

Postar um comentário