Numa noite chuvosa, Aline olha pra o céu em busca de um sentido para tudo isso.
Seus pais acabam de se separar.
E o seu irmão está longe.
Ela ainda é uma adolescente.
Procura o seu lugar no mundo.
O vento é mais frio.
Mas ela não se importa.
O seu pensamento está longe.
Bem distante dali.
2.
Numa aula de história, Aline se apaixona pela Grécia antiga.
E o seu sonho é conhecer este lugar.
Ela sonha com os mitos de deuses e monstros.
A noite, escreve poemas.
Poesias que ninguém lê.
Ela sente um vazio n'alma.
Uma vontade de se libertar daquele lugar.
Sair daquela rotina.
Mas Aline não sabe o que fazer.
3.
O fim de ano chega.
Ela vai pra praia com a sua mãe.
Seu pai está longe.
Todos os dias, ela caminha a beira mar.
Aline gosta da sensação do vento no rosto.
Da solidão que lhe acalma.
Até que um dia, ela encontra uma lanterna vermelha.
E junto com a lanterna um bilhete.
"Me encontra na cabana verde hoje".
Ela fica surpresa.
Mas não temerosa.
Finalmente algo misterioso e fascinante acontece em sua vida, ela pensa.
Ela pega lanterna vermelha.
Procura a cabana verde.
E ao longe ela vê algo que não estava lá antes.
Aline vê a cabana.
E com a confiança juvenil, ela segue pra lá.
4.
Ao chegar perto da cabana, Aline vê que a construção é nova e bem cuidada.
E quando ela pensa em bater na porta, esta misteriosamente se abre.
Um gato carinhoso vem lhe dar as boas vindas, se enroscando entre suas pernas.
Ela faz carinho no gato.
E este a conduz para dentro da cabana.
A porta se fecha sozinha.
E a lanterna vermelha ganha vida e sai flutuando até ir pra uma mesa no meio da sala.
Ela percebe que a sala onde se encontra é espaçosa e mobiliada de forma moderada.
Uma lareira no canto da sala está acesa.
De repente, uma mulher de vermelho aparece.
Aline se assusta.
- Olá. Não se preocupe. Meu nome é safira. Estou aqui pra lhe ajudar.
Sem saber o que fazer, Aline se senta numa cadeira.
4.
Muito bem. Eu sei o que se passa na sua vida, diz safira.
É mesmo? E como vc sabe disso? Pergunta Aline.
Eu sei porque é minha natureza saber das coisas, responde safira.
- hum. Este papo é estranho.
- Então você está disposta a dar um novo rumo a sua vida?
- Sim. Eu não tenho nada pra perder mesmo.
- Ótimo. Ali naquela mesa há um caderno e uma caneta. Sente-se e escreva o que lhe vier a mente. Depois daremos mais um passo na sua jornada.
- Tudo bem então.
Aline vai até a mesa, senta-se e decide escrever uma carta pra ela mesma.
5.
Carta de Aline
...
Eu me vejo numa praia.
Uma mesa e uma cadeira.
Estão na areia.
Em cima da mesa, um relógio.
Os ponteiros estão parados.
O mar está calmo.
O dia está tranquilo.
Eu sinto vento no rosto.
Me sento e olho o céu.
Sol está radiante.
As nuvens deslizam suavemente.
Tudo é perfeito.
Compreendo o tempo.
E olho pra ele.
As brigas de meus pais.
Não tem nada a ver comigo.
Meu irmão está longe.
É sua rota de fuga.
Eu não o recrimino.
Cada um faz o que pode.
Água molha os meus pés.
O relógio volta a funcionar.
Eu olho pra ele.
Me levanto e vou embora.
...
Safira lê a carta.
- Ótimo. Você escreveu bem.
- O que acontece agora?
- Eu tenho algo pra você.
- O que?
- Tome estes presentes.
Safira lhe dá uma caixa amarela.
Aline olha dentro e fica surpresa.
- O que eu faço?
- Dê pra sua família.
- Para que?
- Você saberá na hora certa.
- Tudo bem então. Obrigado.
Ela pega os presentes.
E vai embora.
6.
Elas voltam pra casa.
Aline fala com sua mãe.
- Eu tenho um presente pra você.
- Que presente?
- Este aqui.
Aline tira um véu de sua mochila.
E entrega a ela.
- Que lindo, minha filha. Obrigado.
- De nada.
A mãe beija Aline no rosto.
Aline sai.
Quando ela coloca o véu, adormece.
Ao acordar, sua mãe está num jardim outonal.
Folhas douradas cobrem o chão.
Ela tá sentada num balanço.
Vento sopra levemente.
Ela vê ao longe, seu marido brincando com os filhos.
Eles correm no meio do jardim.
A mulher fica emocionada.
Ela não sabe bem o que aconteceu.
Mas agradece pela lembrança.
Um dia ela foi feliz.
7.
Aline vai visitar o seu irmão.
- Olá, que surpresa vc aqui.
- Saudades de vc.
- Que bom então.
- Como estão as coisas?
- Do mesmo jeito.
- Compreendo.
- Eu tenho um presente pra vc.
- Ah, não precisa.
- É só uma lembrança.
Ela lhe entrega um par de sandálias.
Elas tem um detalhe.
Um par de pequenas asas.
- Que lindo. Obrigado.
- De nada.
Eles se abraçam.
Eles passeiam por uns dias.
Aline volta pra casa.
Uma noite, seu irmão vê as sandálias.
Ele as coloca.
E quando está no quintal, começa a voar.
Ele fica temeroso.
Mas, estranhamente, uma sensação de calma invade o seu espírito.
Ele voa até às nuvens.
E vê a Lua.
As estrelas dançam ao seu redor.
Ele fica emocionado.
E um pensamento lhe ocorre.
Na verdade, uma lembrança.
Numa noite como aquela, ele e seus pais foram ao cinema.
Foi um filme divertido.
Eles riram muito.
Depois, foram ao restaurante.
Na volta pra casa, ele admira da janela do carro, o céu estrelado.
E a lua que tanto brilhou naquele momento.
E quando dá por si, está novamente no chão.
Ele vai se deitar.
Não entende o que aconteceu.
Mas, emocionado, ele chorou.
E sente saudades daquele tempo.
8.
Aline visita o pai.
Eles se abraçam.
- Oi, minha filha. Como você está?
- Eu tô bem, obrigado. E o senhor?
- Também estou bem.
- Ótimo. Eu lhe trouxe um presente.
Aline lhe dá uma caixa de madeira de cor azul.
- Obrigado, minha filha. É muito lindo.
- De nada.
Ele aperta ela contra o peito.
- Você quer um café?
- Sim.
- Eu vou preparar.
Eles passam uma tarde tranquila.
A noite, Aline volta pra casa.
O seu pai olha pra caixa.
E ao abri-la, ele tem uma visão.
Num hospital, sua ex-mulher se encontra operada.
Sua filha acabou de nascer.
Ele acaricia os cabelos da mulher.
E eles se beijam.
Ele vê a filha no berçário.
Ela dorme tranquilamente.
Ele fica emocionado.
Seu filho chega com a avó.
Ele abraça o filho.
E contemplam a bebê.
Sua mente volta pra o presente.
Seu olhar fica perdido.
E ele se pergunta o que deu errado?
9.
Em casa, Aline pensa nos acontecimentos dos últimos dias.
Algumas semanas passaram.
Campainha de casa toca.
Ela vai atender.
É o seu irmão.
- Ian, que surpresa.
Eles se abraçam.
- Pois é. Deu saudade. Vim ver vocês.
- Entra. Nossa mãe foi no mercado. Logo chega.
- OK.
Eles conversam e comem alguma coisa.
Mãe deles chega.
E fica contente com a visita.
Ela vai preparar o almoço.
Ian diz que vai ficar ali por alguns dias.
Aline adora esta notícia.
A noite, eles se preparem pra sair e jantar.
A campainha toca.
Ian vai atender.
- Pai?
- Oi, filho. Que surpresa.
Os dois se abraçam.
Aline e a mãe também ficam surpresas.
Ele fala com a ex mulher.
- Oi, Cristina. Como você está?
- Olá, Juan. Eu estou bem e vc?
- Também. Espero não ter atrapalhado vocês.
- Nós íamos sair pra jantar.
- Tudo bem então. Eu vou embora.
Ian pede pra ele ir também.
- Eu não sei se devo.
Cristina fala que por ela tudo bem.
Os filhos concordam.
Aline fica feliz.
Todos vão pro restaurante.
No jantar, Juan fala pra eles.
- Me desculpem por tudo. Eu sei que errei com vocês. Isto não tem perdão.
A mae e os filhos ficam atônitos.
Cristina diz que não é fácil.
Juan responde que sabe disso.
Cristina continua a conversa.
- Eu ainda amo vc. E quero tentar outra vez. Se você melhorar.
Juan fica emocionado e diz que promete melhorar.
Todos se abraçam.
Mas Cristina adverte.
- Vamos com calma.
Juan responde que compreende.
Eles continuam o jantar.
Aline não cabe em si de felicidade.
Ela olha pela janela.
E percebe que alguém olha pra eles.
Do lado de fora, safira sorri pra ela. E Aline devolve o sorriso.
10.
Todos vão embora.
Juan vai pra sua casa.
E eles vão pra deles.
Uma nova etapa começa.
Um futuro promissor.
Uma esperança pra todos.
Ao se deitar, Aline percebe uma luz vermelha.
E ao olhar no corredor, uma lanterna vermelha brilha intensamente.
Aline dorme tranquilamente.
Fim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário